Um engasgo: falta de ar, sensação de sufocamento, de morte. Quem não já passou por isto? Pensemos nesta situação sendo vivida por uma criança pequena ou um recém-nascido. Como ele se sente ou interpreta o fato? Procura-se por um psicólogo basicamente por amor a si mesmo ou aos seus (no caso dos menores). Ao contrário do que uns ainda dizem sobre “psicólogo ser coisa de loucos”, faz-se terapia como uma prova de sanidade mental. Independente se a procura foi pelo autoconhecimento ou pelo sofrimento ou ainda por apresentar algum transtorno.

A psicoterapia visa a busca de Si- mesmo, o aproveitamento do potencial e assim a segurança e o equilíbrio. Segundo Hollis “o analista procura estimular o diálogo interior, confiando que a voz do Si-mesmo se manifestará e esperando que o cliente virá a confiar na própria verdade interior, trata o paciente como uma pessoa digna de respeito e que personifica um chamado misterioso, cuja expressão é o objetivo da vida.” (Hollis, James – a passagem do meio; pg 91Paulus Edt.)

Para as pessoas que se desenvolveram de forma “normal e saudável” é uma forma de conhecer-se. E o que seria um desenvolvimento normal? O que é trauma? Quando se inicia um processo psicoterapêutico geralmente o ponto de partida é a queixa que levou o sujeito ao psicólogo, daí parte-se para a busca das prováveis causas para a queixa em questão através da investigação pela anamnese.

Reconstrói-se a vida do sujeito, desde o início, não para procurar culpados, mas, para obter dados sobre situações que possam ter sido geradoras dos comportamentos disfuncionais pois “… é possível frequentemente detectar e diagnosticar distúrbios emocionais na infância, mesmo durante o primeiro ano de vida”( Winnicott, A família e o desenvolvimento do indivíduo – pg 14) e “… o desenvolvimento emocional do primeiro ano de vida determina a base da saúde mental do indivíduo humano”. (Idem – pg 15).

Dentre as situações, muitas existem que, para os adultos não se constituem como “traumáticas” pelo fato de ter sido ainda muito pequenos, às vezes ainda na vida intrauterina. Porém, não devemos esquecer que os bebês são seres vivos, sencientes, os quais os estímulos externos causam tensão ou bem estar que, por ainda não terem consciência, não sabem explicar o que aconteceu. Daí interpreta perceptiva e sensorialmente como ‘perigo’, ‘abandono’, ‘desamor’ estes estímulos. O bem estar é incorporado naturalmente e contribui para o desenvolvimento.

Assim, alguns “eventos comuns” como engasgos, refluxo, cólicas, segurar de “mal jeito”, viagem dos pais, pais tensos e ou agitados, cirurgias, exames e internações, podem se configurar como traumas, a depender de como as crianças os interprete. Muitos sintomas atuais, a exemplo de transtornos alimentares, pânico, insônia, ansiedade, podem ter sua origem em momentos assim.

Como disse Winnicott, a criança nasce com uma “tendência ao desenvolvimento” cabendo aos pais conduzirem-na para o desabrochar deste potencial. Isto pode ser feito na forma de um equilíbrio entre o dar e o exercício de impor limites, de forma que ela não se sinta incompetente, pelas duas vias.

Estamos em um momento de transição, onde os pais trabalham muito ao mesmo tempo que querem ser melhores amigos dos filhos e, devido ao avanço tecnológico, lidamos com a geração “touch screen”, onde tudo é muito rápido. No pouco tempo em que estão juntos, não querem ter o trabalho de educar, de impor limites e correm o risco de não serem tão amados como gostariam. Para não serem chamados de chatos abdicam de suas funções. Os filhos criam-se abastados e sozinhos. Como construir referências se ninguém as deu? A princípio estes jovens não são “traumatizados”. Tiveram tudo, queixar-se de que? Estes são os mais difíceis, pois o trauma básico é o abandono. Abandono pelos pais que não quiseram fazer seus papéis para não se estressarem. E, infelizmente, a mensagem simbólica passada para os filhos é a de que eles não valem a pena o esforço, eles que se virem sós, pois não querem ser chamados de chatos. Assim, encontramo-nos frente a uma geração com muitos indivíduos sem responsabilidades, sem esforço, sem cultura. “A primeira idade adulta (adolescência) é enformada não através do verdadeiro conhecimento do mundo interior e exterior, e sim através da confusão e da dependência das instruções e dos modelos dos pais e das instituições” (Hollis, James idem acima, pg. 86). Os opostos, tanto do excesso como de falta de limites fazem com que a criança não desenvolva seu potencial de crescimento. E, por terem tudo, menos orientação e referência, estão perdidos e frustrados, não sabendo como nem porque lutar por algo.

Um exemplo claro disto tem sido o depoimento constante dos adolescentes com relação à escola: – Se eu posso estudar só duas semanas na época da recuperação, por que estudar o ano todo? Com o alto custo da educação os pais preferem pagar pela recuperação, às vezes de todas as matérias que pagar o ano inteiro da repetência. Nisto, os filhos não aprendem e os pais não gastam e a mensagem de irresponsabilidade e menor esforço é passada. O pior das situações é lidar com os pais, pois eles não abrem mão do poder de terem sido “ótimos”, de terem “dado tudo aos filhos”.
Não têm a humildade de reconhecer que realmente fizeram o que acharam melhor, mas que não foi o suficiente para formar cidadãos responsáveis e independentes.

Conclusão, tudo pode ser um trauma e é passível de acompanhamento, se não pelo trauma, para conhecer por quais meandros sua personalidade se construiu.

Regina Gama – Psicóloga – CRP-03/757
71 3379-4451 | 99940-3634 | 98880-4451
http://www.clinicadepsicologiadg.com.br/

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *